top of page

Marcos Vieira

Diretor Lethe Editora

Criador (juntamente com Fran Vieira) da Lethe Editora, que perfaz o papel de curador, editor, diagramador, revisor. Coopera com a direção de arte, e produção de capas.

Pesquisador

Pesquisador nas áreas de educação (doutorado), difusão do conhecimento (posdoc), filosofia, artes plásticas e música. Organizou diversos livros acadêmicos: Natureza da Criatividade 3 e 4, Avaliação e Sociedade, e participou com inúmeros capítulos de tantos outros livros acadêmicos. Atualmente, como projeto pessoal, vem dedicando-se à literatura existencialista em toda sua amplitude, bem como artes plásticas e músicas como catarse absurda. Também vem tecendo um livro sobre tradições monistas (prioritariamente o Advaita Vedanta).

Poeta/Escritor

Considera sua escrita como uma pareidolia poética absurda-existencial. Tem escolhido falar tudo que tem a expressar em formato de poesia pouco convencional. ​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

Pintor/Músico

Artes gráficas e música sempre foram estratégias para entrar em um fluxo de autoconsciência mediado por um grafite ou por teclas. ​Sua principal estratégia criativa é a aleatoriedade como promotora da intuição. Trilha sonora e pintura abstrata são seus principais eixos criativos aleatórios.​​​​​​​​​​​​​​​​​​​

Réquiem

​

​

​

​

 

Das entranhas para o estranho.

 

Não sei explicar sobre a sensação de descobrir que a realidade é quase toda formada por irrealidades, vazios e silêncios. Uma descoberta racional? Sim. Sensorial? Não. Não faz sentido algum ver ou escutar o vazio. Pensamos sobre isso; a imagem é construída em algum caminho sináptico, racionalizamos e criamos fórmulas explicativas. Ou simplesmente abandonamos qualquer explicação racional e partimos para a fé. Contudo, o que é esse tropeço existencial que aguça para um estranho realismo, para pontos vazios, incertos, desprovidos de fótons? Esse é palco do absurdo, do sem sentido. Como é sem sentido falar de realidade formada de irrealidades. Compartilho com o leitor o choque da ausência de lógica comum, o que se mostra perfeitamente legítimo. Um certo abandono, por um instante, das certezas prévias, tão bem educadas e calculadas. Então, um mergulho na intuição talvez sirva para algo, uma bússola para a travessia. Vamos apreendendo sobre a vida por seu interior, longe dos rótulos ou das divisões intelectuais que apenas circundam o que chamam de verdade. Cuidado: a palavra escrita não é o foco; ela é namarupa, manipulada sagazmente por Maya, agindo como uma interrupção do fluxo, emergindo como uma tensão entre o sentir e o registrar, entre o pulsar da vida e a rigidez do texto. A crueza evocada remete aos penhascos íngremes escarpados ante a rebentação do mar bravio, onde a realidade se apresenta em sua forma mais áspera e despida de adornos. Não sei dizer se cada palavra e pensamento foi calculado para trazer alguma sensação insatisfatória. Prefiro acreditar que a escrita é crua como a percepção da existência. Uma certa integridade ao reconhecer que as sobras, as cascas vazias e a ferrugem que corrói o cotidiano são inerentes a quem caminha descalço pelos mangues e pedras. Este é o ser que assume a condição de dejeto existencial e transforma a decadência em um campo de observação privilegiado. A pele nua da existência trata a dor e o isolamento como fatos concretos da matéria o ser sempre em si. A escrita só se realiza como absurdo se na presença do instante, que elimina a tirania do tempo cronológico. Então, leitor, aceite a hospitalidade severa do inominável, com coragem para encarar o vazio sem o auxílio das mentiras reconfortantes (nós sabemos quais). E o silêncio? Ah, é a única substância que permanece após a queda de todas as máscaras. Escrevo mensagens engarrafadas lançadas ao mar, cuja função está no próprio lançamento, ignorando qualquer destino final ou recepção humana. Um ato de expurgo definitivo do acúmulo interno, transformando a angústia em objeto físico destinado ao esquecimento. Mas não nos enganemos: a própria existência de uma garrafa boiando sem destino na solidão do oceano justifica-se pela necessidade de esvaziamento do autor, um delírio que ganha corpo e deixa de ocupar o espaço da alma.

 

... e continua

 

Réquiem ætérnam dona eis, Dómine, et lux perpétua lúceat eis. Requiéscant in pace. Amen.

Imagem1.png
bottom of page