Existencialismo: o que aprendi lendo Kierkegaard
- Ananda Maya
- 8 de mai.
- 9 min de leitura
Atualizado: 25 de mai.
O que é existencialismo?
Aqui a resposta parte de como entendo tal tema e que por sua vez está claramente descrita na vida de Kierkegaard. A primeira vez que percebi que escrever algo que remeta a alcunha de existencialismo tem como premissa a própria vida do escritor foi lendo Dostoiévski. Em um certo sentido, ele escreveu a própria sofrida vida e sua percepção de mundo. Bem como, Kierkegaard, ou talvez, ‘principalmente’ Kierkegaard.
Há escritores que se dizem existencialista, ou força para parecem como, mas, não são e o motivo é simples, qual o objetivo final, expurgar ou vender? Bem como há os leitores de obras ditas existencialistas que leem enquanto literatura, palavras e frases de impacto, mas, quando fecha o livro o mundo não mudou de cor.
Porém, da mesma forma que há escritores a expurgar suas existências, há leitores que: ou já vivenciam essa forma de refletir sobre si e mundo e a leitura chega como um alento que diz: “eu estou com você”, ou pessoas que ao lerem passaram a compreender outras dinâmicas, texturas, e a beleza do absurdo.
Kierkegaard escreveu sua própria vida dentro de reflexões filosóficas, que com suporte de metáforas e pseudônimos, rasgou a continuidade do pensamento de época para inaugurar uma filosofia menos idealista e focada sobriamente na existência em si.

Desenho feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard (1840)
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O pensamento de época no século XIX, e para contexto que estamos falando, Copenhague, a capital dinamarquesa, era vivida em uma vida social pautada pelas aparências e pela rigidez das instituições luteranas estatais.
É neste palco provinciano que nasceu, viveu e morreu Søren Aabye Kierkegaard (1813–1855), o homem cuja produção intelectual viria a revolucionar o pensamento ocidental, rendendo-lhe, postumamente, o título de "pai do existencialismo". Ainda que ele nunca tenha de fato criado esse título. O que é importante, pois afinal, ele não seguiu uma régua chamada existencialismo... ele apenas viveu intensamente e com uma honestidade radical. Uma honestidade de quem, enquanto vivia o teatro de uma vida de aparências elegantes e passeios diários pelas ruas de Copenhague, escondia um indivíduo atormentado por crises familiares, desilusões amorosas e um profundo sentimento de isolamento existencial.
Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, no seio de uma família abastada. Seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard, um comerciante de lã que havia enriquecido rapidamente, carregava consigo uma severa melancolia religiosa. Michael era assombrado pela convicção de que sua família carregava uma maldição divina. Este peso psicológico foi transmitido diretamente a Søren e agravado por uma tragédia real: dos sete irmãos Kierkegaard, cinco morreram prematuramente antes de completar 33 anos, restando apenas Søren e seu irmão mais velho, Peter. O jovem cresceu sob a sombra constante da morte e do juízo divino.
Em 1837, Kierkegaard conheceu Regine Olsen, uma jovem de 15 anos por quem se apaixonou profundamente. O casal chegou a oficializar o noivado em 1840. No entanto, em uma decisão que chocou a conservadora sociedade dinamarquesa e que marcaria a ferro sua própria biografia, Søren rompeu unilateralmente o compromisso apenas um ano depois.
Kierkegaard convenceu-se de que sua profunda melancolia, sua deformidade física sutil (ele sofria de um desvio na coluna) e sua vocação intelectual intransigente o tornavam incapaz de proporcionar uma vida conjugal tradicional e feliz. Para poupar Regine, e impulsionar a si mesmo em direção ao seu destino literário, ele agiu de maneira fria e excêntrica para que ela o rejeitasse. O episódio do noivado desfeito tornou-se o catalisador estético e filosófico de quase toda a sua produção posterior, ecoando diretamente em obras como Temor e Tremor e Ou-Ou.
Após o rompimento com Regine, Kierkegaard iniciou um período de extraordinária fertilidade intelectual. Financiado pela herança paterna, escrevia de maneira febril em seu apartamento. No entanto, para não se apresentar como um doutrinador moralista perante o público, ele adotou uma complexa estratégia de comunicação indireta através de pseudônimos. Sob os nomes de Victor Eremita, Johannes de Silentio, Vigilius Haufniensis e muitos outros, o dinamarquês publicou tratados filosóficos que simulavam diferentes visões de mundo. Kierkegaard não queria dar respostas prontas ao leitor, mas forçá-lo a confrontar suas próprias dúvidas e escolher, por conta própria, o rumo de sua vida.
Os últimos anos de Kierkegaard foram marcados por um desgaste físico e emocional extremo. Kierkegaard utilizou seus próprios recursos financeiros para publicar o folheto O Instante, no qual acusava a Igreja Luterana Estatal de trair o verdadeiro cristianismo. Para ele, a instituição havia transformado a fé em um funcionalismo público confortável e vazio, destituído do verdadeiro compromisso individual. É importante frisar que ele não negava sua fé ou tradição, mas, o como a igreja articulava suas crenças. Um filósofo radical, investigando a fé.
Em outubro de 1855, consumido pela exaustão e com os recursos de sua herança praticamente esgotados, Kierkegaard desmoronou na rua. Foi internado no Hospital de Frederico, em Copenhague, onde recusou-se a receber a comunhão de pastores da igreja que tanto criticara. Em 11 de novembro de 1855, aos 42 anos, Søren Kierkegaard faleceu. Deixou como legado um diário pessoal de dezenas de volumes e uma obra que viria a influenciar gigantes do século XX como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Martin Heidegger e Franz Kafka.
O cerne da filosofia de Kierkegaard reside na defesa intransigente do indivíduo singular. Em uma época dominada pelo idealismo alemão, que tentava explicar toda a realidade por meio de leis históricas e lógicas universais, Kierkegaard levantou-se para dizer que a existência humana não cabe em equações conceituais.
Para ele, as verdades mais importantes da vida, o amor, a fé, o sentido da própria existência, não são fatos objetivos que se descobrem em um laboratório ou em um manual de lógica. Elas são verdades subjetivas, que só passam a existir quando o indivíduo se compromete apaixonadamente com elas. Existir, para o ser humano, é ser confrontado constantemente com a necessidade de escolher. Essa liberdade de decidir o próprio rumo gera a angústia, a própria manifestação de nossa espiritualidade e liberdade.
Embora o termo "existencialismo" só tenha sido cunhado no século XX (popularizado por Jean-Paul Sartre), Kierkegaard é universalmente reconhecido como o precursor desse movimento por ter alterado o eixo da investigação filosófica. Antes dele, a filosofia ocidental priorizava a essência. Kierkegaard inverteu essa lógica para focar na existência concreta.
Para Kierkegaard: não basta pensar sobre a vida, é preciso agir e assumir a responsabilidade pelas consequências dessas ações; o ser humano vive em constante tensão entre o finito (sua realidade física e temporal) e o infinito (seus anseios de eternidade); finalmente a percepção de que, nos momentos mais cruciais da vida, estamos irremediavelmente sozinhos. Nenhuma ciência, moral social ou instituição pode escolher por nós.
Kierkegaard foi um escritor que usou a própria dor como matéria-prima para sua filosofia. Ao recusar-se a dar respostas fáceis, ele nos legou uma obra que continua a incomodar. Ele nos lembra, em cada página, de que a vida é uma realidade a ser vivida em toda a sua dolorosa e bela intensidade.
Ou-Ou: Um Fragmento de Vida (1843)

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Publicado em fevereiro de 1843 sob a edição do pseudônimo Victor Eremita (o "Vitorioso Eremita"), este calhamaço de mais de setecentas páginas, uma coleção de papéis confessionais, foi supostamente encontrado dentro do compartimento secreto de uma velha escrivaninha.
A estrutura de Ou-Ou é um espelhamento dialético de duas formas absolutamente incompatíveis de encarar a jornada terrena: o Estádio Estético (Volume I) e o Estádio Ético (Volume II).
A primeira parte da obra reúne os escritos do jovem "A", um esteta brilhante, melancólico e cínico. Para o esteta, a vida é uma matéria-prima para a estimulação sensorial e intelectual. Ele rejeita qualquer compromisso de longo prazo porque a repetição destrói a novidade.
O texto abre com os Diapsalmata, aforismos líricos e dolorosos que ditam o tom do livro (como o famoso diagnóstico: "O que é um poeta? Um homem infeliz que esconde profundas dores no coração, mas cujos lábios são moldados de modo que, quando os suspiros e os gritos dele escapam, soam como uma bela música"). Seguem-se ensaios sobre o erotismo musical em Don Giovanni, de Mozart, e análises sobre a tragédia antiga e moderna.
O ponto culminante do primeiro volume é o celebrado "Diário de um Sedutor". Nele, o personagem Johannes narra, com precisão cirúrgica e frieza matemática, a sedução da jovem Cordélia. Johannes não busca o prazer carnal simples; seu objetivo é estético-psicológico. Ele deseja manipular a mente de Cordélia até que ela se apaixone livre e fanaticamente por ele, para então abandoná-la no auge do sentimento. O prazer está no processo intelectual da conquista.
Contudo, Kierkegaard demonstra que a vida puramente estética carrega o germe de sua própria destruição. Por depender de estímulos externos sempre renovados, o esteta cai inevitavelmente no tédio absoluto e, por fim, no desespero. Sem um eixo moral interno, ele se fragmenta.
A resposta ao desespero estético vem no segundo volume, composto pelas cartas que o Juiz Wilhelm envia ao jovem "A". O Juiz representa o baluarte da estabilidade burguesa, o cumprimento do dever e a inserção saudável na comunidade.
Para o Juiz Wilhelm, a verdadeira liberdade não consiste em flutuar de desejo em desejo, mas na escolha ativa de si mesmo. Ao escolher-se, o homem assume a autoria de sua história, aceitando seu passado e suas circunstâncias. O Juiz defende vigorosamente o casamento e o trabalho como instâncias sublimes onde o amor ganha continuidade no tempo, transformando a paixão volúvel em compromisso ético.
No entanto, o projeto ético também encontra seu limite. Ao tentar cumprir a lei moral de forma perfeita, o indivíduo inevitavelmente falha. Ele descobre que não é totalmente bom, deparando-se com a culpa. A ética, portanto, falha em redimir o homem por completo, servindo apenas como uma ponte de transição que empurra a alma em direção ao próximo estágio: o religioso.
Temor e Tremor (1843)

O Sacrifício de Isaac, Caravaggio (1603)
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Lançado em outubro de 1843 sob a assinatura de Johannes de Silentio, Temor e Tremor é talvez a obra de leitura mais dramática e perturbadora de Kierkegaard. O livro é uma meditação obsessiva sobre a passagem bíblica do Gênesis 22, na qual Deus exige que Abraão sacrifique seu único e amado filho, Isaque, no topo do Monte Moriá.
O ponto nevrálgico do livro é o questionamento: haverá uma "suspensão teleológica do ético"? Do ponto de vista da moral universal humana, o que Abraão se dispõe a fazer é um assassinato de primeiro grau. Se ele contasse a seus contemporâneos, seria apedrejado ou trancafiado como louco.
Kierkegaard diferencia o herói trágico (como o rei grego Agamemnon, que sacrifica sua filha Ifigênia pelo dever cívico de salvar sua frota) do Cavaleiro da Fé (Abraão). O herói trágico permanece dentro da moral; ele pode chorar publicamente e a sociedade compreende seu sacrifício em nome do bem comum. Abraão, ao contrário, age fora e acima da moral. Sua ação não visa o bem comum; ela é uma relação absoluta e privada entre um indivíduo singular e Deus.
Por isso, o Cavaleiro da Fé é condenado ao silêncio. Ele não pode se explicar, pois a linguagem humana só comunica o universal (aquilo que todos compartilham e compreendem). Explicar a fé racionalmente seria destruí-la.
Johannes de Silentio descreve que a fé exige um esforço psicológico duplo que a maioria das pessoas confunde com mera credulidade: a resignação infinita, ou seja, o ato de abrir mão, de coração limpo e doloroso, de tudo o que se ama no plano temporal.
Abraão aceita que Isaque vai morrer; ele o entrega inteiramente a Deus. O salto da fé ao absurdo, é aqui o milagre existencial, pois, após resignar-se plenamente, o Cavaleiro da Fé acredita, contra toda a lógica do mundo, que ele receberá tudo de volta nesta vida. Abraão crê que Deus lhe devolverá Isaque vivo e intacto no presente.
A fé, para Kierkegaard, não é uma doutrina confortável ou uma crença de domingo. É uma tensão constante na corda bamba do absurdo, um estado existencial que gera "temor e tremor" por colocar o indivíduo em absoluta solidão diante do Criador, sem a proteção das leis ou das justificativas sociais.
O Conceito de Angústia (1844)

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Publicado em junho de 1844 por Vigilius Haufniensis, este livro é frequentemente considerado o primeiro tratado de psicologia existencial da modernidade. Nele, Kierkegaard investiga a natureza do pecado original e a estrutura da consciência humana diante das infinitas possibilidades da vida.
A grande contribuição clínica e filosófica da obra é a distinção definitiva entre o medo e a angústia. O medo é uma reação biológica e psicológica direcionada a um objeto real e definido do mundo externo (medo de um animal selvagem, da pobreza, da dor). A angústia, por outro lado, não tem objeto. Ela é a relação do espírito humano com o "nada". Ela se manifesta quando o indivíduo toma consciência de sua própria liberdade e percebe que as rédeas de seu destino estão em suas mãos.
Para ilustrar a dinâmica da angústia, Haufniensis utiliza uma das imagens mais potentes da história da filosofia: a vertigem. Quando um homem se aproxima da beira de um penhasco elevado e olha para baixo, ele sente um frio na espinha, uma atração terrível pelo vazio. Essa vertigem nasce da percepção repentina de que o indivíduo tem o poder de se atirar. A angústia é a vertigem da liberdade.
Kierkegaard aplica essa dinâmica ao mito de Adão. No Éden, Adão vivia em um estado de inocência que era, na verdade, ignorância. No momento em que Deus pronuncia a proibição, "não comerás do fruto", a ideia de desobediência entra na mente de Adão não como um desejo imediato, mas como uma possibilidade.
Adão contempla o abismo de sua liberdade de desobedecer, sente a vertigem da possibilidade e, paralisado pela angústia, cai no erro. O pecado não é herdado biologicamente como uma doença genética; cada ser humano repete o "salto" de Adão no momento em que sucumbe à vertigem de suas próprias escolhas livres.
Apesar do caráter aterrorizante do conceito, O Conceito de Angústia termina com uma nota surpreendentemente positiva. Para Kierkegaard, a angústia é uma categoria pedagógica indispensável.
O indivíduo que nunca sentiu angústia vive em um estado de estupidez ou de alienação social; ele é uma engrenagem na máquina do cotidiano, incapaz de perceber a profundidade de sua própria existência. É a angústia que desintegra nossas ilusões de segurança, quebra nossa dependência da aprovação alheia e nos obriga a encarar a nossa própria verdade. Somente aquele que aprende a ser angustiado da forma correta está pronto para dar o salto definitivo em direção à autêntica maturidade espiritual.




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